quarta-feira, 29 de abril de 2015

POESIA SEMPRE!

Leia o poema ínédito 'O vento soou' da obra inédita Bordéis, Puteiros e Lojas de Conveniências de autoria do poeta e escritor maranhense Fernando Atallaia

O vento soou


O vento soou desta vez como uma canção
De dor entre os dentes na muralha estraçalhando forte o horizonte
Porrada. Um cão latindo na calçada e uma doce sensação de agonia nas gengivas

Festa, baderna, fanfarra e automóveis
Um homem nu sobre seu último espelho vulnerável, ali aonde todos os famintos, famélicos e Lamuriados jogam os pães sobre a mísera consciência

Foi o que restou. Um pescador sem mar buscando as águas fugidias no arrebentar
Soco no verão. Invernos gélidos para sempre
Mas foi essa torrente que fez dele um operário da doença no passo infalso das repartições
Dobrado, esguio, já fúnebre pelos muitos cafezinhos e vodkas derramadas

Álcool forte, embriagador das retinas sobre as saias ralas de trocados?
Putas na bandeja cerejas ao molho do cru e cruel azedume /filé de fritas abafado partiu para si mesmo

Quem é ele? Porque rogais? Como voa sua pele sobre o derradeiro e último tango?
Mas é da conveniência que tome por igual a quem nunca viu tão diferente

Salta-lhe os olhos como lâminas despejadas para o abate
Nem toda carne que beija agora será sonho no futuro/imagem/memória
Ele já nasceu com espinhos sob os pés/caminhou léguas para trás

E no devir ainda não gemeu.